Ela é só uma gata? Um Conto RPG.


― Você não existe! Já te falei: Você não existe!

Ele fala com convicção. Olhando em meus olhos. Minha reação é rir e retrucar:

― Essa é uma frase… Como é que se fala? Putz, tava na ponta da língua… Ah, sim! Retórica?

Ele faz uma careta, estende o braço com a mão espalmada pra mim, fecha os olhos e franze os lábios. Após balançar a cabeça desalentadamente por alguns instantes, continua:

― Você é fruto da minha imaginação.

Minha vontade de rir aumenta. Me contenho.

― Que papo é esse Toni? Tá ficando louco? Fumou marofa estragada de novo?

Ele me olha desanimado, como se não quisesse ter essa conversa.

― Como é que eu vou te convencer? ― Ele pergunta.

― Me convencer do que? Olha, isso tá ficando estranho. Tô começando a ficar assustado contigo. Vim aqui por que tu me chamou, agora fica com essa lombra esquisita aí… Quer saber, foi um erro essa tentativa… Tô vazando.

― Não! Por favor, não vá ainda. Não sem eu explicar. É importante pra mim. É que, tem acontecido uns lances bizarros esses dias…

Eu voltei, sentei no sofá preto todo rasgado pelos gatos do Toni. Paloma pulou do assento e veio se esfregar nas minhas pernas. Aí, vi um bom argumento:

― Vê? A Paloma sabe que eu sou real. Precisa de mais alguma prova? Cara, cê sabe que faço qualquer coisa por ti. Qualquer coisa, tá ouvindo? Pô, te devo a vida…

― Não fala isso! Não fala! Tá vendo? Esse é o problema…

Não entendi nada. Já perdi a conta de quantas vezes o Toni me salvou. De perigos e até de mim mesmo. Bom, tá certo que, na maioria das vezes, era ele mesmo que me colocava em perigo. Mas, tudo bem, ele nunca me deixou na mão. Agora, ele tá surtando e eu me sinto impotente. Não sei como ajudar. Tenho medo que ele faça alguma besteira. Tento acalmá-lo:

― Tá bom. Tá bom… Olha, diz então o que tá te incomodando, vou ouvir sem te julgar, tá o.k.? De mente aberta.

― Cê tá acabando com a minha vida, cara…

Novamente, fico pasmo. Me esqueço da promessa de ficar com a mente aberta:

― Que merda é essa, Toni? Eu, acabando com tua vida? Por que? Somos amigos há anos, crescemos juntos, tivemos um monte de aventuras que ninguém mais poderia ter. Agora essa história sem pé nem cabeça. Que é que tá pegando?

Ele se senta no outro sofá, tão ferrado quanto o que eu estou usando, põe as duas mãos em posição de oração em frente aos lábios e desabafa:

― É que, desde que você entrou na minha vida. Tem sido só isso. Você comigo, o tempo todo. Não tá deixando espaço pra mais ninguém. Tenho que alçar outros voos, quero crescer.

Minha armadura começa a incomodar. O cabo da espada está pressionada contra o encosto do sofá e, consequentemente, repuxa minha barriga, que dói um pouco. Dez mil moedas de ouro por essa coisa e ela me machuca quando sento… Eu retiro a lâmina da bainha e a deposito em cima do assento livre, à minha esquerda. Ele olha o movimento atento e, parece, um pouco preocupado. Será que acha que eu pretendo usar a arma contra ele? Que bobagem, meu código de honra nunca permitiria atacar alguém desarmado. Ele sabe disso. Porra! Ele que criou isso. Me sinto ultrajado. Mas, ele não percebe, continua com sua história estranha:

― Não tá sobrando tempo pra mais nada. É só você, o tempo todo, estamos sempre juntos.

Eu sorrio.

― Ora, mas todo mundo sabe que juntos somos invencíveis. Todos querem fazer as quests com a gente. Nós somos uma lenda nessa cidade. Já faz tempo, anos. Caramba! Faz mais de dez anos já…

Ele balança a cabeça positivamente. Finalmente concorda comigo em alguma coisa. Mas, reassumindo seu ar preocupado, continua:

― Eu decidi uma coisa muito importante. Olha, não leva a mal não… Mas, a gente não vai mais andar juntos.

Agora eu fico preocupado. Olho pra ele, demonstrando que quero uma explicação. Nossa dupla é lendária. Ele quer jogar tudo fora? Todos os caras dariam um testículo pra serem meus parceiros e ele quer terminar tudo? Assim, de graça? Ele fica me olhando, sem dizer mais nada. Eu perco a paciência:

― Fala, porra! Que porcaria de decisão é essa que tu tomou? Já sei, é aquela mulher, né? Tá exigindo mais tempo pra ela. Aquela vagabunda não gosta de você, Toni, aliás, não gosta de você nem de ninguém da nossa turma, e, todo mundo sabe que ela só quer que você faça o TCC pra ela. Como você pode ser tão burro?

Ele sorri finalmente, e diz:

― Mulher, vagabunda, turma, TCC… Eu, burro? Caralho! Eu caprichei mesmo dessa vez.

Eu fico bravo.

― Tá de gozação, né? Me chamou aqui pra tirar uma da minha cara. Realmente foi um erro vir de novo aqui. Quer saber? Se é isso que tu quer, que seja. Agora eu tô indo mesmo. É isso mesmo que tu quer?

Ele olha pra mim, morde os lábios inferiores.

― Sim. É isso mesmo que eu quero.

Quando ele termina a frase, acontece algo surreal. Me sinto achatado, deitado de costas num plano branco. Não posso me mexer e não consigo olhar para os lados, só para a frente. Vejo a cara chateada do Toni e sua mão vindo na minha direção, não, as duas mãos… Elas passam por cima de mim, agarram alguma coisa acima da minha cabeça, então, uma dor lancinante me toma conta, uma dor que não se compara a nada que eu tenha sentido em anos de lutas e batalhas difíceis. Sinto como se estivesse sendo rasgado, de cima a baixo. Estou, sim, estou sendo rasgado. Literalmente rasgado. Estou reduzido a pedaços, misturados… Agora, sou jogado no cinzeiro. Peraí! Não acredito que ele vai ter coragem… Mas está, está acendendo o isqueiro, aquele maldito isqueiro. Pedi tanto pra ele largar esse vício… Ele até que tentou depois que a tia dele morreu com um câncer no cérebro, mas, acabou não dando conta. Ele ainda carrega aquela porra de isqueiro pra onde vai. A chama se aproxima. Ele hesita um pouco, pensa, pondera. Será que a razão vai falar mais alto? Não! Não! Não quero morrer… Queimado ainda, rasgado. Agora sei como aqueles zumbis deveriam se sentir… É tarde, o fogo toma conta dos meus pedaços, alguns segundos e sou apenas cinza. Ele olha pro que restou. Muito triste, agarra o cinzeiro e levanta de um impulso, não percebendo que um pedacinho que escapou da incineração voa do cinzeiro e cai pertinho do pé do sofá.

A tampa de metal faz um barulhão quando ele tira o pé da alavanca e deixa a mesma fechar a lata de lixo, após esvaziar o cinzeiro.

Quando retorna, seus olhos se arregalam ao ver a espada largada no sofá. Ele põe as duas mãos em volta da cabeça e fecha os olhos dizendo:

― Não, não, não.

Cacete! Quando ele abre os olhos, a espada tinha sumido. Ele sorri, aliviado.

Ele se senta no sofá, procura um cigarro no bolso, põe na boca, acende e dá uma tragada. Funda, sofrida até. Deixa a fumaça sair pelas narinas, parece estar em paz. Depois, levanta e sai porta afora.

Paloma aparece correndo do quarto, fareja o ar e vê o pedacinho de papel. Ela bate com a patinha esquerda nele, querendo brincar. O papelzinho voa aleatoriamente até que cai com a inscrição virada pra cima. Ela chega perto, olha pro papel e arregala ainda mais os olhos hipnóticos. Parece espantada. Será que ela sabe ler? Não, ela é só uma gata, não é? Mas, tá lá, escrito a lápis: “Nível: 99”.

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